Lula e Morte do Pai

Em psicanálise, a passagem para a maturidade é marcada pelo que Freud chamou de a morte do pai. É o momento doloroso em que o pai deixa de ser o herói sem defeitos, a figura de quem dependemos e em quem confiamos incondicionalmente para torna-se um ser humano com defeitos e qualidades, um igual.

Não encontro melhor metáfora para os acontecimentos de ontem.

Ouvindo Lula falar na sede do partido, depois de ter prestado depoimento na Polícia Feral, os sentimentos me vieram contraditórios, ambíguos. Lula é um mito, o herói nacional. Lula é o próprio símbolo do brasileiro. Sofrido. Lutador. O homem que saiu de Pernambuco quase um retirante. Não teve pai, não teve educação superior, foi perseguido pelo regime militar, enfrentou a tudo e a todos para se tornar o Presidente de maior popularidade da história do país.

A mágoa de Lula era evidente em sua eloquência forte. Eu moldei o Brasil pós 88, desde a Constituição! Na constituinte, defendi os poderes do Ministério Público e da Magistratura! Sempre defendi a democracia e o Estado de Direito! Tirei milhões da miséria! Dei luz a tantos outros! Diminui a desigualdade social como nunca antes na história deste país! Como podem perpetrar tamanho desrespeito contra mim por conta do sítio de um amigo e de dois pedalinhos!? O que são R$ 30 milhões frente a tudo que fiz e em comparação a toda a dilapidação que esse país sofreu nos últimos quinhentos anos!? Ele parecia dizer.

Lula é o pai.

É difícil dissociar Lula da sua belíssima história e dos seus grandes feitos. É difícil julgar os fatos praticados por Lula sem olhar para essa história. A mágoa máxima de Lula parecia ser a falta de consideração por ele, que doou toda a sua vida para melhorar a vida de todos. O desrespeito de ser tratado como um igual. O discurso de Lula era o discurso do pai traído, apunhalado.

Quando amadurecemos de verdade, matamos simbolicamente o pai. É o que nos diz Freud. O pai passa a ser um igual, sujeito aos mesmos pecados e às mesmas leis, obrigado a prestar esclarecimentos, talvez até a cumprir pena. A morte do pai é extremamente dolorosa porque nos sentimos sozinhos e culpados. Quem irá cuidar de nós? Quem irá nos defender? Quem irá melhorar o país? Estamos por conta própria. Só nos resta acreditar em nós mesmos e nas instituições que construímos juntos.

A morte simbólica do pai é um acontecimento dolorosíssimo. Um estertor. Será que estamos prontos para dispensar os pais salvadores e começar a andar por conta própria de acordo com as Leis aprovadas por nós mesmos e que valem de modo igual para todos?

Muitos têm medo.

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